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Pandemia que nos aproxima – leia artigo publicado na revista PROTESTE
Edição de maio que os associados PROTESTE receberam traz texto do filósofo e psicanalista André Martins sobre as apreensões trazidas pelo coronavírus. 
 
01 junho 2020 |

É normal, e até inevitável, que a Covid-19, que levou todo o mundo à quarentena e reclusão, tenha gerado ansiedade, tristeza e medo. Não foi uma histeria coletiva, e sim uma apreensão real. O medo é compreensível nesse momento. O filósofo Spinoza chama a atenção de que o medo é um afeto passivo. Ou seja, é um sentimento que vem a partir de uma ameaça externa. É, na verdade, uma projeção de futuro, do que pode acontecer amanhã. Então, o medo diminui a nossa potência de agir, podendo levar à tristeza, ao pânico, à angústia, à ansiedade generalizada e à depressão.

Uma saída comum para isso é a negação da realidade, que acaba surgindo como uma fuga, uma solução paliativa. Negar é fingir que o problema não existe. É fugir do motivo dessa dor. Só que isso acaba gerando mais sofrimento. Até mesmo a crença religiosa – existem algumas igrejas dizendo que a fé vai curar as pessoas – pode servir como defesa nesses momentos. Mas traz o risco evidente de um contágio real. O vírus se espalha independentemente de quem é a pessoa, se ela acredita ou não acredita. No caso do coronavírus, essa preocupação consigo mesmo é uma preocupação também com o outro. 

Lidar com o medo recai, com frequência, na questão da esperança. Spinoza mostra que a esperança é uma alegria, porque aumenta a nossa sensação de potência. Só que não é uma potência real. Ainda que a esperança se contraponha ao medo, se ela vier acompanhada de uma negação, torna-se frágil e pode se transformar em desespero. Em desesperança. Ela só terá utilidade se nos fortalecer para encarar a realidade.

O medo também tem o seu lado bom. Ele pode nos servir para não fugirmos do que está acontecendo. O medo nos ajuda a perceber os fatos e a pensar, na prática, o que fazer, aceitando a realidade, mesmo que ela seja dolorosa. Quando a pessoa está numa euforia e, no caso do vírus, ignora a questão da contaminação, reunindo-se, por exemplo, para festas, esse sentimento torna-se extremamente nocivo para a pessoa e para o coletivo. Então, às vezes, a tristeza e o medo são os artifícios que permitem a ficha cair. É como se a pessoa dissesse para ela mesma, a contragosto: "Chega de fachada, chega de autoengano, chega de fingir que está tudo bem". E isso vai levá-la a encarar a dor da qual está fugindo e trazer uma reflexão que certamente vai permitir que, a partir de então, ela tenha atitudes positivas. 

  Esse aprendizado do medo é fundamental em termos individuais, e, no caso do coronavírus, podemos pensar também em benefícios coletivos. Durante a pandemia, ficou claro que as universidades públicas são fundamentais para pesquisa. Não é possível só importar resultados de estudos estrangeiros, porque a ciência é imprescindível para cada nação. Ficou claro também que desacelerar é importante para a vida de cada um. E que é preciso pensar o planeta como uma coletividade, independentemente de classe social, gênero, raça, nacionalidade, religião ou espectro político. De forma diferente das guerras, em que a nação se une internamente contra um inimigo, a pandemia uniu todos. 

  Males sociais, exploração, cada um pensar em si primeiro, nações e classes privilegiadas... Tudo isso, infelizmente, deve retornar. Mas vai retornar com uma missão muito forte que pode servir para cada pessoa. Mesmo os vencedores dessa competição serão prejudicados pela própria competição. Por isso, é importante que cada indivíduo passe a desejar um mundo coletivo menos excludente. Não importa se você é de direita ou de esquerda. O que importa é agir corretamente em momentos de crise e ter a predisposição real de se pensar cada país e até mesmo o planeta como uma coletividade única. Essa é uma das lições que a pandemia está trazendo. 

 

Escrito por André Martins, filósofo e psicanalista, professor da UFRJ, Doutor em filosofia pela Université de Nice, com Pós-doutorado Sênior em filosofia pela Université de Provence. Autor de “Pulsão de morte? Por uma clínica psicanalítica".

 

*Este artigo reflete a opinião dos autores, e não necessariamente a da PROTESTE.

 

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